"Boa tarde, senhor"
Me respondeu o cidadão portando um fuzil maior que sua estatura, do alto de suas Havaianas. Uma crônica fotográfica sobre a Rocinha, preconceito e a melhor vista do Rio de Janeiro.
Este post é patrocinado pela Gelatin Labs.
Eu nunca tinha entrado numa favela. Morei trinta anos no Rio, sempre com a Rocinha ali, visível de qualquer ponto da zona sul (ou do trânsito pra quem vai), e nunca pisei lá dentro. De longe ela parece um quadro: milhares de casas empilhadas no morro, cada uma com sua pequena caixa d’água azul em cima, luzes à noite como se o céu tivesse escorregado pra encosta. De perto, eu não sabia. E não sabia porque nunca fui. Trinta anos morando do lado e nunca fui. Essa frase, sozinha, já diz muito sobre o tipo de preconceito que a gente carrega sem perceber. Eu não evitava a Rocinha por um motivo concreto. Eu evitava porque absorvi a ideia de que aquilo não era pra mim, de que era perigoso, de que não tinha nada ali. A cidade inteira funciona assim: a favela está ali, todo mundo vê, e quase ninguém entra. Este post é, entre outras coisas, uma tentativa de desmontar um pouco disso.
A ideia surgiu ainda em Nova York, no planejamento da viagem. Eu sabia que queria fazer algo na Rocinha, fotografar de alguma forma, mas não sabia exatamente o quê. Pensei naquele vídeo de drone do instagram, pensei naquele passeio de jeep que vendem pra gringo, pensei em ficar só no entorno. Meu amigo Edgard, que mora em São Conrado, ficou de organizar alguma coisa. O plano era simples: churrasco na casa dele e depois conhecer a Rocinha.
Acontece que no dia do churrasco o gás do botijão acabou. O Edgard foi na Rocinha pra comprar outro e, enquanto estava lá, perguntou pra um dos mototaxistas que ficam no pé do morro qual seria a melhor forma de fazer um passeio fotográfico. O cara perguntou se a gente queria experiência turística ou experiência raiz. O Edgard, cria do Rio, pediu indicação do tour raiz. O cara lá indicou o passeio de moto. E assim, de um botijão de gás vazio, nasceu uma das experiências mais marcantes da minha vida.
Subi preparado pra me sentir vulnerável. Levei câmeras descartáveis da Gelatin Labs. Uma no meu bolso, outra no bolso do Edgard, leves o bastante pra não chamar atenção e baratas o bastante pra não doer se sumissem. Celular no outro bolso. Nenhuma câmera boa, nenhuma Leica, e me arrependo um pouco disso, porque ainda não revelei o filme das disposables. Essa escolha de deixar a câmera boa em casa também diz algo.
Eu fui com medo de ser roubado num lugar onde, no fim, ninguém sequer olhou pro meu bolso. A gente planeja a visita com base no que a televisão e o Instagram nos venderam, e não com base no que o lugar realmente é.
Fomos eu e Edgard, cada um na garupa de um mototáxi, um atrás do outro. A subida é íngreme e as ruas são estreitas, o tipo de rua que não aparece no Google maps porque a imagem de cima é ocupada pelo enxame de casas. O mototaxista desviava de pedestres, de outras motos, de cachorros, de crianças, tudo isso numa velocidade que não era alta mas que parecia alta porque o espaço era mínimo, a auto-organização da coisa é tão eficiente quanto uma colméia, que inclusive tem seu Zangão Rei em algum lugar…
Quando o guia mototaxista parava num ponto e saía pra manobrar a moto, apontando ela pro próximo destino, confesso que batia um mini-desespero. Eu olhava em volta, via dezenas de ruelas saindo em todas as direções, e pensava: se esse cara me largar aqui, eu estou completamente perdido.
Mas ele não largou. E o que ele mostrou valeu cada segundo de apreensão.
Nosso guia nos levou a um barbeiro no topo da favela. Um cara cortando cabelo numa laje, assistindo futebol numa televisão improvisada, com uma vista que eu nunca vi igual. De um lado, São Conrado e o mar. Do outro, a Lagoa Rodrigo de Freitas e a Zona Sul inteira. Essa vista só existe ali, naquele ponto. Nenhum hotel cinco estrelas, nenhum mirante turístico entrega isso. O barbeiro trabalhando tranquilo, a TV ligada no jogo do Barça, a cidade inteira aos pés dele. A simplicidade daquela cena me marcou mais do que qualquer cartão postal do Rio.
Tem partes do trajeto que fiz onde não se pode fotografar nem filmar. Nosso guia avisava com antecedência e a gente religiosamente respeitava. A razão é prática: existem áreas onde pessoas circulam armadas, e não estou falando de pistola. Fuzil de guerra, do tamanho de quem o carrega. A comunidade quer preservar a imagem externa e evitar que visitantes filmem e postem somente isso nas redes. Faz sentido. E é exatamente esse o ponto. Se você pesquisar “Rocinha” no YouTube, a maioria dos vídeos mostra armas e tensão. É o recorte que gera clique. Ninguém filma o barbeiro na laje, o campeonato de futebol na ruela, a mãe levando o filho pra escola de manhã. A favela é reduzida ao que assusta, nunca ao que funciona. Numa dessas ruelas, entrando pra ver um campo de futebol onde acontecem campeonatos locais, cruzamos com dois rapazes armados com fuzis. Eu fiz o que qualquer pessoa educada faria: disse “boa tarde.” O rapaz respondeu “boa tarde, senhor”, com uma naturalidade que me desarmou mais do que eu já desarmado estava.
A Rocinha é controlada pelo Comando Vermelho, a maior facção do Rio de Janeiro. O território foi tomado do antigo grupo Amigos dos Amigos em 2018. Apesar disso, existe uma ordem interna. Nosso guia explicou que brigas físicas são proibidas, que tudo precisa ser resolvido no diálogo, que conflito dentro da comunidade não é tolerado. E existe uma proteção ao visitante: se algo acontecer com quem está passeando, quem mais se prejudica é o responsável pela visita (no caso eles).
Na descida, o trânsito de motos era intenso e todo mundo socializava. Mototaxistas se cumprimentando, trocando ideia parados no meio da rua, rindo, fazendo piada. Carro de som torando com anúncio da barraca nordestina. Filmei um pouco com o celular. Vi uma moto bater num ônibus na descida, o cara caiu mas levantou sem grandes danos. A vida seguia.
O que mais me impressionou, olhando pra trás, foram duas coisas. A primeira é a quantidade absurda de cenas fotográficas que existem naquele terreno. A Rocinha é um território praticamente não explorado no mundo dos livros de fotografia, e cada esquina entrega uma composição pronta. Luz, textura, camadas, vida. Da próxima vez, eu levo a Leica. Porque é seguro, sim. A impressão que a mídia constrói sobre o que acontece dentro da favela é muito diferente da realidade de quem vive e de quem visita.
A segunda coisa é a resiliência. As subidas são brutais. As ruas não acabam. As casas se empilham de um jeito que desafia qualquer lógica urbanística. E ali dentro vivem mais de 70 mil pessoas que acordam todo dia, trabalham, criam filhos, cortam cabelo numa laje com uma vista de milhões. A Rocinha já foi considerada a favela mais armada do mundo. Hoje é uma comunidade com hotéis, que eles chamam de mirantes, com restaurantes, com comércio, com gente que te recebe de braços abertos se você chegar com respeito.
Quando terminamos o passeio, o Pix não funcionou pra pagar os guias. Então eles nos levaram até um supermercado, sacamos dinheiro num caixa eletrônico, e eu comprei três caixas de bombom: uma pra cada mototaxista e uma pro barbeiro da laje. Desejei feliz Páscoa. Eles ficaram felizes e fizeram uma chamada de vídeo no Zap pra mostrar pro cara, que ficou muito feliz. Peguei o contato, adicionei no Instagram. Povo humilde, trabalhador, que te recebe como se te conhecesse há anos. Nos convidaram para o baile no dia seguinte, mas eu já estara voltando pra casa.
Me arrependo de ter morado trinta anos no Rio sem nunca ter subido, tão quanto me arrependo de ter carregado só uma câmera descartável.
Se você está lendo isso e nunca entrou numa favela, eu entendo. Eu fui esse cara por três décadas. A gente cresce ouvindo que é perigoso, que não tem o que fazer lá, que é outro mundo.
É outro mundo, sim. Mas não do jeito que te contaram.
Próxima vez que eu vier ao Rio, vou na melhor barbearia da cidade, com a melhor vista. Vou lá fazer a barba, do jeito que minha mãe gosta!




















