Carta ao Rio de Janeiro
Diário de um cucaracha, 2026
Rio,
Eu morei com você por trinta anos e nunca te dei valor. Cresci perto da praia, tive amigos a vida inteira, conheci minha esposa e fiz meu filho aí. E mesmo assim, quando fui embora, não olhei pra trás. Primeiro fui pra São Paulo a trabalho, depois pra Nova York, e levei comigo a certeza de que eu tinha feito a coisa certa.
Dez anos depois, eu volto como um turista observador. E vou te dizer que volto envergonhado.
Envergonhado porque eu te detestava. Achava tudo desorganizado, bagunçado, quente demais. Eu queria sistema, queria padrão, queria poder comprar eletrônico barato. Quando eu olhava pra fora e via tudo que você não era, nunca parei pra olhar o que você sempre foi.
Precisei morar uma década nos Estados Unidos pra entender o que significa comer bem. Parece bobagem, mas não é. Aqui no Rio eu entro em qualquer restaurante e a comida é caseira. Fresca, feita na hora, com ingredientes que ainda lembram de onde vieram. Outro dia tomei um suco de coco batido com água de coco num boteco de esquina, uma coisa tão simples que eu jamais teria valorizado aos vinte anos. Isso simplesmente não existe em Nova York. Lá, um suco verde custa doze dólares e tem gosto de grama com marketing. Depois das dez da noite, suas opções são fast food ou solidão. No Rio, eu sento num restaurante às onze e como uma refeição completa, feita do zero, por um preço que em Manhattan não pagaria nem a tax. muito menos a tip. Carne fresca, frutas frescas, tudo fresco. O agro e a agricultura brasileira entrega algo que americano nenhum consegue comprar com dinheiro: comida de verdade, o tempo todo, pra todo mundo.
E por falar em coisas que o dinheiro não compra, existe um traço carioca que eu sempre critiquei e que, ironicamente, agora admiro: a falta de sistema. Nos Estados Unidos, o garçom manda seu pedido pro terminal, a cozinha recebe, uma outra pessoa traz: ninguém fala com ninguém. É eficiente? Sim. No Rio, o garçom é a mesma pessoa que te recebe, que anota, que leva o prato, a ponto de que se você pedir pra trocar o pão do sanduíche, ele vai lá dentro e fala direto com o cara (ou a moça) da cozinha, ou se você quiser a batata frita cortada mais fininha, é capaz dele(a) entrar e pedir isso pessoalmente com quem está fritando. Não existe protocolo, e sim conversa. Esse “jeitinho brasileiro” que a gente tanto critica quando mora aqui, esse improviso constante, é o que permite uma personalização que eu nunca encontrei em lugar nenhum do mundo. Nos EUA, se o item não está no menu, ele não existe. No Rio, o menu é uma mera sugestão.
Essa informalidade se estende pra tudo, inclusive pro corpo. O calor e a umidade arrancam qualquer pretensão de elegância formal. Havaianas reinam. Outro dia desci pro Bibi Sucos de short de tactel (sem cueca, óbvio), chinelo e uma camisa que eu já deveria ter jogado fora. Ninguém olhou duas vezes. Existe um Rio de grife, claro, os shoppings de São Conrado, as vitrines do Village Mall. Mas no dia a dia, ninguém se importa se você está de Armani ou de Renner. O Rio nivela pelo conforto. E tem algo de bonito nisso, algo de boêmio que não tem a ver com festa ou com excesso. Tem a ver com saber viver. Com priorizar o estar bem acima do parecer bem. Com transparência mesmo, no sentido de humildade e honestidade intelectual.
Eu sei o peso do que estou dizendo. Sei que essa admiração toda é fácil quando se chega com dólar no bolso, pedindo Uber Black por dez dólares numa corrida que em Nova York custaria duzentos. Sei que o Rio que eu descrevo é o Rio da zona sul, e que a maioria dos cariocas enfrenta problemas que eu não preciso enfrentar nessa visita. A segurança continua sendo o problema número um. Moto com dois ocupantes e farol apagado à noite ainda é sinônimo de perigo. Isso é real e eu não pretendo fingir que não é. A vida no Rio é uma caixinha de surpresas, e as pessoas têm um pavio muito curto para brigar e disputar as coisas mais medíocres que você pode imaginar.
Como pode um povo com tanta riqueza se preocupando com coisas tão pífias? Eu era assim. E precisei me afastar 9.000 km por uma década para notar.
Mas, mesmo com tudo isso, existe algo nas pessoas do Rio, que não existem no resto do Brasil, e muito menos do mundo. Um calor humano, uma leveza, uma disposição pra resolver as coisas com o que se tem. E eu precisei de dez anos longe, de invernos de menos vinte e cinco graus celsius, de comida pasteurizada e de uma solidão muito bem organizada pra finalmente enxergar o que você me oferecia de graça todos os dias, bem em frente aos meus olhos.
Rio, foi mal aí. Eu morei trinta anos com você e passei boa parte desse tempo querendo estar em outro lugar. Não sei se algum dia eu volto pra ficar. Mas agora, pelo menos, eu sei o que deixei pra trás. Também não reclamo, levo uma vida legal na gringolândia, mas isso aqui é foda, tá?
Com todo respeito? Tu é pica.
Raf










